O ano da água
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Portal Revista Infra - sábado, abril 20, 2019
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O ano da água
ONU elege 2013 como Ano Internacional da Cooperação pela Água. Objetivo é conscientizar sobre a importância do recurso

O Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, teve um significado especial neste ano: a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) elegeu 2013 como o Ano Internacional da Cooperação pela Água. O objetivo é conscientizar as populações sobre o significado do precioso líquido para a vida e a sustentabilidade da Terra.

Trata-se de um propósito relevante, pois estudos da ONU reiteram um diagnóstico preocupante: mais de um bilhão de indivíduos (o equivalente a 18% da população mundial) não contam com a quantidade mínima aceitável de água potável, carência que se estenderá a dois terços da humanidade (5,5 bilhões de pessoas) já em 2025, caso não se encontrem soluções eficazes. Há, ainda, o risco de que, em 2050, apenas um quarto disponha de quantidade diária suficiente para satisfazer suas necessidades básicas. A escassez também tem forte impacto negativo na área da saúde: 1,7 bilhão de pessoas não têm acesso a sistemas de saneamento básico e 2,2 milhões morrem a cada ano em todo o mundo por consumir água contaminada e contrair doenças como diarreia e malária.

A água ocupa 70% da superfície do Planeta. Porém, a maior parte (97%) é salgada. Apenas 3% do total são constituídos por água doce, o suficiente, segundo a ONU, para atender de modo pleno às necessidades da humanidade, se não houvesse tanto desperdício e poluição. Do total de água doce, 0,01% está em rios, disponível para uso. O restante encontra-se em geleiras, icebergs e subsolos muito profundos. Apesar dos volumes escassos, são as reservas de rios, lagos e lençóis subterrâneos as que utilizamos para produzir alimentos e colheitas, as que mantêm a biodiversidade e os ciclos de nutrientes e atividades humanas.

Nesse contexto, o Brasil tem posição privilegiada, pois detém a maior reserva de água doce, com cerca de 13% do total disponível no planeta. Entretanto, mais de 80% concentram-se em estados pouco povoados da Amazônia e na bacia do rio Tocantins, enquanto regiões do Nordeste sofrem com as secas e a escassez de sistemas de irrigação, segundo relatórios da Agência Nacional de Águas. Não bastassem esses desequilíbrios regionais, determinados pela natureza, há o problema da poluição por resíduos urbanos e industriais, principalmente nas grandes cidades, causado pelo ser humano como subproduto da ausência de planejamento urbano adequado.

Quase todos os municípios brasileiros (99,4%) contam com rede de abastecimento, mas uma em cada cinco casas não têm água encanada, como revela estudo do IBGE. Tal deficiência também decorre do planejamento precário. Além disso, as cem maiores cidades brasileiras desperdiçam anualmente cerca de 2,5 trilhões de litros de água, perdidos em encanamentos velhos, vazamentos, ligações clandestinas e demais problemas na rede de distribuição. O volume que jogamos fora seria suficiente para abastecer durante um ano inteiro todos os 41 milhões de habitantes do estado de São Paulo, esclarece o Instituto Trata Brasil.

Não resolveremos esses problemas sem encarar a realidade. Enquanto a burocracia e o rigor de normas e leis excessivamente limitantes dificultam a realização de projetos urbano-residenciais com água encanada e tratada, redes de esgotos e saneamento básico adequado, há enorme complacência com o uso irregular do solo, a construção irregular de bairros inteiros em áreas devolutas e/ou impróprias para habitações, a poluição de mananciais e  as ligações clandestinas.

Precisamos utilizar com sabedoria nossa imensa reserva de água doce. Caso contrário, acabaremos tendo escassez, pois o desperdício e a utilização equivocada não aceitam desaforos. É preciso aproveitar a oportunidade aberta pelo Ano Internacional da Cooperação pela Água para uma ampla reflexão sobre como estamos tratando essa questão no Brasil. Ainda há tempo para mudarmos práticas e conceitos e aproveitarmos de modo mais correto o que a natureza nos concedeu.

 

Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Fiabci/Brasil


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